Você tem medo de dentista?

Você tem medo de dentista?

Aos sete anos, tiveram que extrair um dente-de-leite e eu não deixava o dentista fazer o trabalho.

Na infância, eu comia muitos doces, muitos mesmo, ao ponto de ter sido diagnosticada com gastrite aos nove anos de idade. A mim, me permitiam encher uma cesta de supermercado com guloseimas, que eu devorava em menos de uma semana. Chocolates, balas, pirulitos, bolachas (ou biscoitos), docinhos de todos os tipos e qualidades, cheios de corantes, conservantes, gorduras hidrogenadas e toneladas de açúcar. Os dentes, coitados, com apenas uma escovação matutina, sofreram. Permissividade confundida com amor. Dizer não, impôr limites, dão trabalho, mas são tarefas importantíssimas para a saúde das crianças, para seu presente e futuro. Somos o que comemos, o corpo tem memória.

Era 1979…já se sabia da importância da escovação depois de todas as refeições? Na sua casa sim?

Voltando ao famigerado dente dolorido: acordei de madrugada gritando de dor. Meu pai saiu comigo de carro pela cidade de São Paulo atrás de um dentista de plantão, mas nenhum aberto. Ficou dando voltas até eu adormecer. No dia seguinte, a dor passou e eu não quis ir ao dentista. Já sabem o que aconteceu, não? A dor voltou. Fui chorando ao consultório e chorando continuei na cadeira do dentista cheia de dor e pânico.

Meu pai e o dentista, que era um amor, ficaram duas horas tentando me convencer a abrir a boca. Eu suava, berrava, chorava e a sala de espera já lotada com outros pacientes, claro, impacientes.

Meu pai, já constrangido e sem argumentos, coitado, tentou segurar meus braços que tapavam a boca, com a negativa do odontólogo. O doutor, que chamava Sérgio, olhou sério pra mim, não me tratou mais como criança e disse:

“–Fernanda…arrancar um dente será dos mais fáceis obstáculos que você vai ter que enfrentar na sua vida. Esse é só um, virão muitos. Se você voltar pra casa sem extrair o dente, você vai se sentir como uma perdedora. Que você prefere? Como você quer lembrar desse momento? Com orgulho ou covardia?”

Eu parei de chorar e abri a boca. Depois de cinco minutos, dente- de- leite fora, levantei da cadeira e dei um abraço no Dr. Sérgio.

Peguei na mão do meu pai e fui pra casa radiante. Meu pai, que eu sempre pude contar nos meus piores momentos, já fazia suas piadas outra vez, me chamava de “baixinha” e voltou a ser engraçado de novo, os dois aliviados, já livres do constrangimento, da dor e do medo. Ah, e com um sonho recheado pra comer depois que eu parasse de sangrar. O açúcar, outra vez…

Dr. Sérgio, tomara que esta croniquinha chegue até o senhor, espero que esteja vivo e com saúde, tarde, mas quero agradecer. Ele trabalhava na antiga rua Pirituba, no Jardim Mangalot (Pirituba), ao lado da padaria, hoje a rua chama- se Joaquim Oliveira Freitas. Segundo o Google Maps (creio) que é o nº 1141, no 1º andar, mas parece não ter mais nenhum consultório, deve ter se aposentado.

Essa foi a primeira grande lição, que eu me lembre, que recebi na vida. Até hoje, 42 anos depois, recordo o meu dentista da infância.

Todas as vezes que eu sinto medo, lembro do dr. Sérgio. “Esse é só mais um obstáculo…coragem ou covardia?”. Eu continuo escolhendo a coragem.

2 respostas para “Você tem medo de dentista?”

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