O poeta Marc Freixas para salvar a língua catalana

O poeta Marc Freixas para salvar a língua catalana

Pergunte- se: “quem eu sou?”. O idioma que conversa contigo durante o sono (e os sonhos) e que povoa os seus pensamentos, é o seu mundo, suas referências e raizes. Podemos ser muitas coisas, falar vários idiomas, mas a língua que fomos alfabetizados e a cultura implícita, onde passamos a infância, acabam prevalecendo.

Curioso, mas muitos filhos de estrangeiros não conseguem manter o idioma dos pais. A imersão, a força do ambiente, as amizades, a escola, vencem. O filho passa a ser um estrangeiro para os pais. O diálogo familiar pode acontecer em dois ou mais idiomas na Europa, é bem comum o multilinguismo debaixo do mesmo teto. Por experiência própria: eu falo em português, minha filha responde em espanhol.

Existe um órgão na Espanha de fomento do castelhano, o Instituto Cervantes, com uma bela estrutura nacional e internacional, o que é perfeito, mas não existe o mesmo empenho com outros idiomas do país, que são o catalão, o galego e a euskera, tão importantes quanto, mas relegados a um segundo plano. O trabalho de preservação e difusão desses idiomas é feito pelas próprias comunidades (os estados). Em Madri, você não vai ler nada escrito em outros idiomas do país. Há que se procurar muito para achar um curso de catalão em Madri (e no resto da Espanha). Há um centro cultural, o Blanquerna, pago pelo governo catalão.

Recentemente, eu fui num recital de poesia na casa- museo de Carlos Barral (Calafell, Tarragona) e conheci o poeta catalão Marc Freixas, que faz um trabalho belíssimo em defesa do idioma. A literatura diz muito mais sobre o sentimento de pertencer, do que possa entender políticos e instituições.

No Brasil, quantas escolas de catalão você conhece? E de castelhano? Já sabemos a resposta.

Deixo um poema do último livro do poeta Marc Freixas (Sant Pere de Riudebitles, 13/02:1972), “Si em prenguessin els àtoms” (minha livre tradução):

Marc Freixas

Salvar a língua.
Não só para falar- la,
não só para escrevê- la.
Salvar a língua,
como de um futuro que porvir
para liberar-nos. Apagando
todas aquelas faíscas
que se acendiam, no entanto,
com um fogo demasiado violento.
Salvar nossa língua.
Não só cada palavra,
não só esse poema.
Salvar minha língua
para fazê- la insubstituível.
Somos a cotidianidade
de uma bela conversa
para ganhar a batalha…,
somos a boca
cheia de gente
que quer voltar a dizer
as cosas e as utopias
por deixar de dizê- las um dia.

Página 90
Freixas, Marc. “Si em prenguessin els àtoms”, El petit editor, 2020.

O poeta já publicou outros três livros de poemas; também é compositor e cantor. É irmão do músico Cesk Freixas. Se quiser conhecer mais a obra do autor, ele publica diariamente os seus versos no Instagram: @marcfreixasmorro

Os livros de Marc Freixas podem ser encontrados aqui.

6 respostas para “O poeta Marc Freixas para salvar a língua catalana”

  1. Grato, Fernanda, pela visita ao UAÍMA.

    Quanto ao seu texto, e ao poema do Marc Freixas, um poema limpo, de olho no que importa – o idioma -, lembremo-nos disso: Minha língua [e minha Pátria – Fernando Pessoa.

    Um abraço.
    Darlan M Cunha

    Curtido por 1 pessoa

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