Uma brasileira num recital em catalão

Uma brasileira num recital em catalão

As melhores coisas da vida sempre acontecem por acaso. É uma leitura certeira que faço sobre os acontecimentos do meu mundo.

Num domingo nublado (ontem, 10.04), decidi conhecer o Museo- Casa Barral, que fica na orla da praia de Calafell (Tarragona, Espanha). Irei contar sobre o que ele tem de especial, quem foi Barral e tudo o que vi, no próximo post. Neste, eu quero falar sobre a delícia do inesperado.

Na saída do museu, a simpática recepcionista nos convidou (mi pareja me acompanhava) para assistir um recital de poesia e música, que iria acontecer no jardim do museu. Disse sim, obviamente, apesar do céu escuro avisar que poderia não ser uma boa ideia. “Almas e palavras”… linda a palavra “alma” em catalão”, “ànima”:

Faltava uma hora para começar o sarau e deu tempo de visitar outro museu ali pertinho, no mesmo passeio, “La confraria de Calafell”, que é um museu dedicado à história dos pescadores do povoado. Outra vez, um recepcionista simpaticíssimo, que nos explicou tudo sobre o ofício no princípio do século XX, principal atividade local, sua evolução e decadência. Há uma maquete de como a cidade era e lamentei profundamente, que a arquitetura com sobradinhos coloridos, tenha sido substituída pelos antistéticos prédios de apartamentos para veraneantes, além dos restaurantes e lojas para turistas. “O progresso”, o oportunismo e a especulação imobiliária, que pena; no final, tudo resume- se a dinheiro. Só restam umas poucas casas originais do povoado, a do escritor/editor Barral é uma delas.

Saí do museu dos pescadores com um calhamaço, uma antologia de Barral vendida por lá, mas não foi só esta aquisição do dia. Seguimos para o Museu- Casa Barral, sentamo-mos ao ar livre, embaixo das árvores. Há mais de dois anos que não participava de atividades coletivas ( o vírus, já sabem…), e foi uma sensação muito boa, o murmurinho de gente, agradável voltar à vida.

Não sabia quem era o poeta, nem o músico, não tinha nenhuma informação e nem pretensão alguma, o coração aberto. Logo nos primeiros versos e notas… “opa, são bons!”. E durante toda a apresentação fiquei hipnotizada e até chorei, emocionada, com aquele momento mágico. A literatura salva sim.

Marc Freixas e Constan

O poeta fez a mais linda defesa da língua catalana que eu já vi. O sentir catalão, o pertencer a uma cultura, a um povo, reverenciar as raízes, honrar a memória e amar a própria terra. Esse conjunto de argumentos são mais que suficientes para a difusão e preservação da língua catalana, que eu estou estudando e espero tornar- me fluente. Aprender um idioma é entrar em outro mundo novo, é riqueza pura.

O poeta que me fez chorar é o catalão Marc Freixas (Sant Pere de Riudebitles, 1975), poeta fino, aqui você poder ler alguns de seus poemas (em catalão). E eu trouxe esse livro autografado pra casa, algo assim “Se me absorvessem os átomos”:

O músico e compositor, que teve tanto protagonismo quanto o poeta, chama- se Constan Fernández (clica), sua música está nas principais plataformas digitais, procurem “Constan” e “L’abric de set hiverns”, seu último trabalho. Está classificado como rock, mas são baladas, poesias cantadas, beleza pura. Mesmo você não entendendo todas as palavras (estão em catalão), vai sentir a beleza que é.

Constan

E também teve a participação da poeta premiada na Catalunha, Inma López, que recitou um poema de Marc Freixas:

Evento promovido pelo “Ayuntamiento” (prefeitura) de Calafell.

"Parlar d'un mateix en veu baixa, i que ningú pugui escoltar allò que penses per dins. Rebre la tristesa amb els límits que comportafer-ho quan arriba, i saber gestionar- ne les raons per abraçar-la sense cap mena de dubte, per deslliurar-te'n plenament, per trobar-te la pròpia llibertat i assolir una dignitat individual i indiscutible." (Marc Freixas, p. 12)
Falando de si mesmo em voz baixa, e que ninguém possa ouvir o que você pensa por dentro. Receber a tristeza com os limites de suportá-la quando chega, e saber administrar os motivos para abraçá-la sem dúvida, livrar-se dela plenamente, encontrar sua própria liberdade e alcançar a dignidade individual e indiscutível. (uma dificílima livre tradução)

 Quando te perguntarem o porquê das Artes: para fazer a vida mais suportável, amigos e amigas...para dar sentido às coisas, para dizer o que não podemos...quando nos conectamos com algum tipo de expressão artística, acontece a catarse e nossa ànima é livre...

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