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Os (des)caminhos da escrita

Durante muito tempo achei que para escrever bastaria ler muito e, ao começar o árduo processo criativo, seria impulsionado por uma inspiração advinda do muito lido. Sarcástico engano. Doloroso engano.

escribir

A parte boa de escrever é, sem a menor dúvida, a leitura (pra que querer saber da trabalheira de encontrar a palavra perfeita, a imagem fiel ao pensamento, a descrição legítima da vida e seu estado aflito?). Ao ler, destituído de reponsabilidade pós-leitura, estamos ao sabor da palavra. Escrever é uma entrega, mas uma entrega amorosa desprovida de amor – se puderem entender, me sentirei jubilado. Quem começa a escrever se entregando com expectativa de recompensa amorosa, não conseguirá nem ao menos virar mote das próprias piadas, conseguirá no máximo encher páginas com seu ego inflado, olhando seu umbigo, a imaginar “muitos me odiaram, milhares me amarão e estes farão meu nome luzir entre as estrelas”, o ato de escrever pré-determinado a agradar outrem, já fere um dos mais altos preceitos da escrita: seu valor deve ser medido a parte da sua ausência de desejo em agradar quem quer que seja (às vezes até a si mesmo).

Quem puder prescindir destes trajes estetas, destas ambições e pretensões, já dará enorme passo ao encontro de si em seu estado puro e pronto a iniciar a jornada ao encontro do seu estilo, sua marca (não encontrei o meu, mas, dia a dia, cavo na terra das minhas horas o ritmo, o som, a melodia. Hei de encontrar antes da derradeira aurora). Quando este encontro acontece, a escrita flui como água rega flores no jardim multicolorido.

Devo, já anteriormente, ter citado minhas labutas na seara contística. Nenhuma satisfatória. Encontrar a voz que fale por ti ou que seja a mais fiel tradução do seu pensamento, não é fácil: note quantas vezes, ao longo de uma conversa, você formula frase e quando solta-a, falta-lhe uma outra imagem, palavra… eis o ponto: prudência e honestidade. A literatura não aceita a presença de um e ausência de outro. Exige presença e compromisso de ambos.

Para ilustrar um pouco o que digo (e não ficar como cão ladrar pro urubu rondando carniça), vi Ferreira Gullar em entrevista comentar sobre o processo de escrita do Poema Sujo – um clássico. Gullar era exilado político, tinha abandonado a família e tinha filhos com problemas de saúde mental. Vivia pulando de galho em galho entre Argentina, Chile e sei lá mais que diabo. A escrita era feita aqui, ali, mudando o tempo todo, com medo, pra cima e pra baixo, carregando seu material. Até o encontro com Vinícius de Moraes… o resto é história (e que história!).

Não posso esquecer que escrever leva, inato em sua tinta e letra, certa aura de arrependimento, ou receio a gotejar – o que não vejo grande diferença. João Ubaldo Ribeiro disse que toda vez que lia “certo trecho” de Viva o Povo Brasileiro queria mudar este ou aquele parágrafo. Estamos falando da obra-prima do autor, ainda assim, insatisfeito (?) com seu resultado final. Conclusão: escrever é reescrever ao longo da vida, não resta poeira sobre a escrivaninha.

Portanto, ao pôr a mão no papel, ou as mãos no teclado, dispa-se. Dispa-se de toda roupa que vens acumulando por dias, meses e anos. Fique como nasceu: nu (falo figuradamente. Não vá achar que, por escrever pelado, vai incorporar Tolstoi e digitar Guerra e Paz no computador. Pelo amor de… Tolstoi). Sente-se sem peso e sem pressa, esqueça quem está lá fora a esperar seus escritos, e, se houver alguém, reze para que reconheça seu esforço, antes de pensar em agradá-lo com riso pérfido e tapinhas que só sujam o ombro – ao invés de acariciar um ego jupteriano. Pensar em agradar a si mesmo, ou simplesmente “desabafar” é só um jeito estúpido de gastar papel ou aumentar a conta de energia elétrica. Quem quer desabafar, procura o analista; e é esse negócio de “desabafar” na escrita que vem fazendo muito analista trabalhar no balcão da padaria (… e o cliente sofre, ao em vez do pão quentinho, encontra freudianos vendendo salvação a granel.

Brincadeiras à parte, a escrita deve estar viva tanto ou mais que nós a partir do momento em que nos propomos a fazer dela uma via a um longo caminho que não se sabe onde vai dar. A felicidade de escrever não pode estar no antes ou no depois, ela tem que estar, irrestritamente!, no durante. Pois é neste tempo – durante – que vivem todos os personagens que a Literatura vai exigir que suas páginas exponham. E não tenha pressa: entre o escritor ansioso e o aliviado, há o que escreve. Este faz da vida o ar no pulmão eterno da escrita.

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